|
Os habitantes das zonas fustigadas pelas chamas tiveram de lutar sozinhos contra
o avanço do fogo. Sem água suficiente, recorreram a tudo o que tinham à
mão
Foi um dia infernal para bombeiros e populações, o pior desde o início da época de incêndios. As acusações de descoordenação e falta de meios sucediam-se à
medida que alguns incêndios nos concelhos de Leiria, Arouca e Amarante tomavam
proporções alarmantes. As chamas cortaram estradas, ameaçaram povoações,
destruíram casas e obrigaram habitantes a recorrer aos seus próprios meios para
evitar o pior. À noite o ministro da Administração Interna rumava a Leiria,
enquanto, no terreno, 2708 bombeiros, apoiados por 791 veículos e 21 meios
aéreos, combatiam 32 incêndios em 11 dos 18 distritos do Continente.
Os
planos de emergência municipais foram activados em pelo menos seis concelhos e
foram também accionados os planos de emergência distrital em Aveiro e Leiria.
Uma medida necessária para enfrentar aquelas que foram, de acordo com o Serviço
Nacional de Bombeiros e Protecção Civil, as piores horas deste ano. Em média,
tem-se registado diariamente o dobro e, nalguns casos, o triplo das ocorrências
em relação a 2004.
"Os meios não são os necessários", lamentavam
população e autarcas. Em Leiria, o distrito mais fustigado pelas chamas, foram
retirados de emergência vários habitantes das localidades de Colmeias,
Caranguejeira e Leão e de um lar de idosos da Raposeira.
Perante a
"manifesta falta de bombeiros", dizia o presidente da Câmara de Pombal, foram os
populares que, munidos de mangueiras e tractores, combateram as línguas de fogo.
Duas casas arderam em Leiria e, ao princípio da noite, estavam ainda sete
incêndios activos naquele distrito.
Igualmente crítica era a situação no
distrito de Aveiro, onde lavravam ainda cinco fogos. No concelho de Arouca, 127
efectivos e apenas um meio aéreo faziam frente às chamas. Desde o início da
manhã, consumiram, incontroláveis, duas casas, duas fábricas e mais de metade da
área florestal (cerca de 15 quilómetros) daquele município. Durante a tarde,
foram evacuadas três povoações. Também ali, tal como em Leiria, a actuação dos
bombeiros foi alvo de críticas.
No distrito do Porto, outros cinco
incêndios preocupavam as quase duas centenas de bombeiros no terreno. A situação
mais crítica registava-se no concelho de Amarante. Durante o dia, quatro frentes
de fogo alimentadas pelo vento e pelas temperaturas elevadas destruíram cinco
casas e cercaram várias povoações. Os 60 efectivos no local acreditavam, no
entanto, conseguir debelar as chamas durante a noite.
À noite, o País
estava efectivamente a arder. Beja, Braga, Coimbra, Guarda, Lisboa, Santarém,
Vila Real e Viseu (também com cinco fogos não circunscritos) continuavam, à
semelhança do que acontecia ao final da manhã, rodeados por colunas de fumo
negro.
REACÇÕES. O cenário preocupante que não
surpreende o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP). "Só por
desconhecimento é que poderiam ter sido feitas perspectivas optimistas para este
ano", diz ao DN Duarte Caldeira. O responsável aponta o dedo à "ausência de
cultura cívica" e ao facto deste problema ser "tratado pelos políticos de uma
forma sazonal". E defende que os bombeiros foram os únicos que aprenderam com o
"catastrófico ano de 2003". As restantes estruturas "não registaram qualquer
evolução".
Acusar os bombeiros é o "caminho mais fácil", mas o problema
não está no combate, defende. "Há um momento em que equipamentos e efectivos não
são elásticos". Quando a prioridade é a defesa de pessoas e bens e as populações
são as primeiras a pôr em causa as suas próprias habitações (ao não limpar num
raio de 50 metros, tal como está estipulada na lei, a sua propriedade) é
"evidente que o combate está comprometido".
António Ferreira do Amaral,
presidente da Autoridade Nacional para os Incêndios Florestais, considera, no
entanto, que os meios no terreno são suficientes, mas "nem sempre é possível
apagar os incêndios com a rapidez necessária". Mas reconhece que a prevenção não
foi a que devia ter sido. O cenário só será diferente quando "o poder autárquico
se interessar, estiver sensibilizado e trabalhar para resolver esta questão".
|