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As chamas teimam em manter--se acesas, ajudadas pelo calor intenso que se tem feito sentir e, em alguns casos, por mãos criminosas que, sem qualquer pejo, lançam focos de incêndio. A Polícia Judiciária de Coimbra procedeu à detenção de mais três suspeitos, responsáveis por fogos ocorridos em Pombal, Cantanhede e Figueiró dos Vinhos, elevando para 23 o número de detidos pelo crime de incêndio

Os últimos incêndios parecem dar razão à voz do povo, quando, com muito poucas dúvidas, fala na origem criminosa de muitos dos incêndios que se têm feito sentido na região, destruindo uma vasta mancha florestal e pondo em risco pessoas e bens. E a voz do povo parecer ter razão, menos no que diz respeito aos fogos que deflagraram na passada quinta-feira em Pombal e em Cantanhede, o mesmo acontecendo relativamente a Figueiró dos Vinhos, já no mês passado.
Com efeito, a Directoria de Coimbra da Polícia Judiciária confirmou, ontem, a detenção de um indivíduo, de 40 anos, solteiro, sem profissão, residente no concelho de Pombal, «indiciado pela prática de cinco crimes de incêndio». Os fogos ocorrem na quinta-feira, na freguesia de Mata Mourisca, naquele concelho e a detenção do suspeito verificou-se a meio da tarde, na freguesia da Guia, em estreita colaboração com o Núcleo de Investigação Criminal da GNR de Pombal.
O suspeito, sem antecedentes criminais, terá ateado cinco focos de incêndio, «por motivo fútil», de acordo com a PJ. Deslocava-se de bicicleta e, com recurso a um normal isqueiro, ateou os fogos, que rapidamente ganharam proporções significativas, consumindo largas dezenas de hectares de floresta e colocado em perigo algumas povoações. O incêndio prolongou-se pela noite dentro e ontem ainda se encontrava activo.
Os suspeito foi ontem presente a tribunal, para primeiro interrogatório judicial e encontra-se em prisão preventiva a aguardar julgamento.
Ainda na quinta-feira, a Polícia Judiciária, através da Directoria de Coimbra, procedeu à detenção de outro suspeito. Trata-se de um indivíduo de 57 anos, solteiro, servente de pedreiro, residente na zona de Ançã, no concelho de Cantanhede. Também sem quaisquer antecedentes criminais, o detido terá ateado o fogo que deflagrou na tarde de quinta-feira na zona da Granja, que ontem ainda se mantinha activo.
Segundo apurámos, o suspeito deslocava-se de motorizada e, com um isqueiro, terá ateado o fogo. Presente ontem a tribunal para primeiro interrogatório, também recolheu ao estabelecimento prisional, onde se irá manter até ao julgamento.

A “estória” repete-se
em Figueiró dos Vinhos

Se estes dois detidos têm em comum uma idade “mais madura” e a inexistência de antecedentes criminais, o mesmo não acontece com o terceiro suspeito detido, também quinta-
-feira, pela Judiciária. Trata-se de um jovem de 23 anos que já cumpriu pena pelo crime de incêndio. Com efeito, segundo apurámos, o detido, residente na zona de Figueiró dos Vinhos, foi preso em 2003 e julgado oportunamente, tendo a sentença ditada pelo tribunal apontado para pena suspensa e o pagamento de uma multa pecuniária a favor dos bombeiros. Parece, pois, que “não chegou a aprender a lição” e voltou a repetir a “façanha”.
De acordo com a Polícia Judiciária, o jovem, servente de pedreiro, é suspeito da autoria de seis incêndios, cinco dos quais ocorrerem este ano, nos meses e Junho de Julho passado. Foram incêndios de grande dimensão, que dizimaram uma extensa área florestal. O sexto fogo terá sito ateado no ano passado, por alturas do Verão.
Quanto ao “modus operandi”, o detido deslocava-se a pé, recorrendo, à semelhança dos restantes suspeitos, à utilização de um isqueiro para pegar fogo à floresta.
Presente ontem a tribunal, o jovem, reincidente no crime de incêndio, que inclusive terá confessado os cinco crimes às autoridades policiais, não ficou, como seria de esperar, em prisão preventiva. Contrariamente ao que aconteceu com os dois outros suspeitos, ambos sem antecedentes criminais, este pôde regressar a casa, onde vai permancer, pois foi-lhe aplicada a medida de coação de termo de identidade e residência.
A estas detenções, efectuadas pela Directoria de Coimbra da Polícia Judiciária junta-se, recorde-se, outra, verificada quarta-feira, conforme noticiámos ontem. Trata-se de um agricultor, de 44 anos, solteiro, que terá ateado dois fogos, em Julho passado, no concelho de Pedrógão Grande.
Ainda ontem, mas no Fundão, os militares da GNR identificaram um homem também suspeito do crime de incêndio. O caso verificou-se na localidade de Capinha e o alerta para as autoridades foi dado pelos bombeiros, depois da população ter avistado um indivíduo suspeito, a quem de imediato imputou a responsabilidade do fogo. A patrulha da GNR acabou por identificou o jovem, de 20 anos, tendo encontrado em seu poder uma vela. O suspeito, bem como uma mulher que alegadamente o terá ajudado, foram entregues à Polícia Judiciária da Guarda, que acabou por proceder à detenção de dois homens, de 20 e 45 anos, e de uma mulher de 25.

Números que assustam

Com a detenção, ontem, dos suspeitos de Pombal, Figueiró dos Vinhos e Cantanhede, a Polícia Judiciária de Coimbra soma um total de 23 detenções pelo crime de incêndio, 16 dos quais são de natureza florestal e sete urbanos.
A nível nacional os números apontavam, ontem, para um total de 70 detidos. Em 2004 foram detidos, por crimes idênticos, em todo o país, 80 suspeitos e em 2003, também em todo o território nacional, 98.
Relativamente a ocorrências, a nível nacional estavam, até ontem, contabilizados 1195 situações, 670 das quais registadas em Coimbra. No que concerne a inquéritos, decorrem, em todo o país, 547, dos quais 361 pertencem a Coimbra.
Em causa estão números que se impõem pelo seu peso, particularmente no que se refere à área de actuação directa da Directoria de Coimbra da Polícia Judiciária (excluindo os departamentos da Guarda, Aveiro e Leiria). Números que assustam pela dimensão que apresentam, sobretudo em comparação com o todo do território nacional. Parece que, efectivamente, os incendiários andam por aí, activos, o mesmo se podendo dizer da Polícia Judiciária que não tem “mãos a medir” para ocorrer a todas estas situações.

Região Centro continua a arder
O Inferno desceu à terra

Ao fim de três dias as chamas continuam a lavrar com intensidade, deixando um rasto de destruição de que não há memória. Pombal já pediu ao Governo a declaração de calamidade pública, e mantém-se a braços com fogo por todos os lados, sem meios capazes de o combater. Em Mira e Cantanhede os incêndios mantinham-se, ontem à noite, activos, mobilizando mais de duas centenas de bombeiros. Mais sorte teve o concelho de Miranda do Corvo, onde depois de uma noite agitada, onde três bombeiros ficaram feridos, o fogo deu tréguas e a situação acalmou. Também em Tábua as chamas se mostraram ontem activas, o mesmo acontecendo em vários concelhos dos distritos de Aveiro, Leiria e Viseu, transformando a Região Centro num imenso braseiro

Mais de 300 hectares de floresta foram consumidos no incêndio que deflagrou quinta-feira à tarde próximo da localidade de Chapinha, em Miranda do Corvo, e que foi circunscrito ontem de manhã. Mais de 120 de bombeiros participaram no combate às chamas, tendo provocado ferimentos em três deles devido à queda de um poste da linha de telefone.
Só ontem de manhã os bombeiros conseguiram extinguir o incêndio que deflagrou na véspera na encosta da Chapinha, no concelho de Miranda do Corvo. O fogo eclodiu por volta das 18 horas numa zona bastante íngreme, o que dificultou a tarefa aos cerca de 120 soldados da paz que foram mobilizados para o combate às chamas, auxiliados por meios aéreos.
O incêndio acabou por se dividir em duas frentes, uma avançou para a encosta da aldeia serrana do Galhardo, tendo merecido maior atenção por parte dos meios áreas por se encontrar numa zona pouco acessível.
A outra subiu pela encosta da Chapinha e só de madrugada, por volta das 04 horas, foi dada como circunscrita. Segundo fonte do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil, ontem de manhã ainda se encontravam no local 90 bombeiros em trabalhos de rescaldo.
No combate às chamas, três bombeiros, dois da corporação de Miranda do Corvo (um partiu dois dedos e outro teve uma luxação) e outro de Góis (partiu o pé), acabaram por sofrer ferimentos devido à queda de um poste de telefone que os atingiu de raspão. Ao todo arderam mais de 300 hectares de mato e eucaliptal. Segundo Fernando Jorge, comandante dos Bombeiros Voluntários de Miranda do Corvo, este foi até ao momento o maior incêndio verificado no concelho.
De acordo um vigilante de floresta presente no local, os helicópteros sentiram bastantes dificuldades no abastecimento, uma vez que tinham de se deslocar à barragem das Louçainhas e a água perdia-se pelo caminho.
Este vigia criticou a inexistência de um ponto de água na ribeira do Espinho, um local que, segundo afirmou, é abundante em água e não seca no Verão.

O presidente do município de Pombal estava ontem, ao início da noite, extremamente preocupado pela devastação das chamas que atingem o concelho há três dias sem dar tréguas aos bombeiros. Narciso Mota contou ao nosso Jornal «nunca ter visto uma coisa assim», e manifestou-se impotente para travar «esta calamidade», que assola várias freguesias de Pombal.
«As chamas atravessaram todo o concelho e já foram consumidos mais de 100 quilómetros de floresta», contou, inconsolável, o autarca de Pombal, considerando a devastação uma «tragédia nunca vista» nos oito séculos de história do concelho.
Narciso Mota, que já pediu ao Governo a declaração de calamidade pública para o concelho, referiu que nestes três dias os prejuízos «atingiram praticamente todos» e que estes «são incalculáveis».
Seis casas habitadas e quatro desabitadas foram consumidas pelo fogo, que, segundo o autarca, também matou animais, arrasou estábulos, armazéns, arrecadações, alfaias agrícolas e dizimou mais de 100 quilómetros de floresta.
«Neste momento (ontem às 20h00) o fogo é de tal ordem na freguesia de Almagreira, que não sei se os bombeiros são capazes de o circunscrever hoje (ontem)», disse Narciso Mota apreensivo.
O autarca, que se tem desdobrado em reuniões com os parceiros da ADSICÓ a quem pediu solidariedade, espera, agora, que o ministro da Administração Interna «venha ver como este concelho ficou, ver a miséria das populações», e prestar-
-lhes a devida ajuda.
«As pessoas se tiverem sentido de Estado, patriótico e humano, não devem querer que andemos de chapéu na mão a pedir», referiu o autarca, sustentando que basta ir ao concelho de Pombal «para ver o estado em estamos».
Narciso Mota enfatizou, ainda, que as populações «estão psicologicamente abaladas» e que esta tragédia acaba «por limitar as suas vidas», pois a grande maioria dos atingidos pelo fogo, dependia da pecuária, resina, da agricultura, da floresta e, agora, «perderam tudo o que tinham».

Uma fatalidade

Face à calamidade, Narciso Mota decidiu ontem pedir ao Governo a Declaração de Calamidade Pública para o concelho. «Este quadro, por si só, assume-se como uma fatalidade que se abateu sobre pessoas e bens», sublinha o presidente da câmara. Narciso Mota criticou a «manifesta insuficiência de meios de combate» aos fogos, nomeadamente a «ausência de meios aéreos», que na sua óptica «contribuiu para a extensão e gravidade da catástrofe». Segundo o edil de Pombal, «grande parte do combate aos incêndios foi levado a cabo por populares e empresas», que responderam à entrada em vigor do Plano Municipal de Emergência.
Narciso Mota assinala a surpresa pela «ocorrência simultânea de múltiplos incêndios» nas 13 freguesias afectadas, o que obrigou à evacuação de diversas populações e lares de idosos. Já a meio da tarde de ontem, utentes dos centros de dia Matamourisca e Albergaria dos Doze foram transferidos para locais mais seguros do concelho. Os fogos provocaram ainda cortes no abastecimento de electricidade, na rede de telecomunicações e em vias de comunicação.
No concelho de Pombal, as situações mais graves registadas até às 18h30 de ontem deram-se em Albergaria dos Doze, onde o Lar S. Pedro foi evacuado, em Almagreira, onde algumas explorações agrícolas foram destruídas e morreram alguns animais. Ainda em Almagreira, os utentes do Lar do Paço foram transferidos para a Zona Desportiva de Pombal, que recebeu também parte da população de Carnide, onde foram destruídas as dez casas pelo fogo.
Ontem ao fim da tarde e início da noite ainda se registavam incêndios nas freguesias da Guia, Ilha, Mata Mourisca, Meirinhas, Pombal, S. Simão de Litém e Vermoil, onde, segundo o autarca, «ainda estão a ser consumidas vastas manchas florestais».

Doze das 29 freguesias do concelho de Leiria estavam ontem ao final da tarde a ser consumidas pelos incêndios, uma situação que a presidente da autarquia, Isabel Damasceno, considerou «preocupante».
Além dos incêndios de Cortes, Caranguejeira, Colmeias e Souto da Carpalhosa, activos desde quarta-feira, a autarquia lembra que também se registam fogos em Memória, Ortigosa, Bidoeira, Regueira de Pontes, Pousos, Arrabal, Monte Real e Milagres. «Quando se pensa que a situação está controlada, depois reacende-se noutro lado», explicou Isabel Damasceno.
Depois de visitar alguns dos locais atingidos pelo fogo, a autarca considerou «um milagre» não terem ardido mais habitações. Em Leiria, até ao início da tarde, havia apenas registo de uma habitação ardida em Serra do Branco, duas suiniculturas destruídas em Bidoeira e Famalicão das Cortes, onde uma casa ficou danificada.
Ao princípio da noite, de acordo com o Serviço Nacional de Bombeiros, estavam mobilizados 196 bombeiros para zona de Valonga. Em Penedo encontravam-se 193 bombeiros. Ambos os incêndios estavam longe de ser controlados, o mesmo acontecendo na Bidoeira.

Chamas em Viseu e Aveiro

No distrito de Aveiro onde, à semelhança do que aconteceu em Leiria foi activado o Plano Distrital de Emergência as chamas mantiveram-se particularmente activas nos concelhos de Vale de Cambra, Arouca, Oliveira de Azeméis, Sever do Vouga, Albergaria-a-Velha e Vagos. Ao princípio da noite, de acordo como Serviço Nacional de Bombeiros, todos os focos de incêndios estavam circunscritos, com excepção de Janarde, em Arouca, e Oussela, em Oliveira de Azeméis.
Relativamente ao distrito de Viseu, a noite chegou sem que estiverem dominadas as chamas em Castro Daire, Penalva do castelo, Viseu e Santa Comba Dão, tendo sido entretanto circunscritos os fogos de Amial (Castro Daire) e Cavernães (Viseu).

Mancha verde reduzida a cinzas
Mais um dia de aflição em Cantanhede e Mira

Depois de uma luta desigual de largas horas entre bombeiros e chamas, o fogo que anteontem deflagrou entre Porto Carros e Ançã acabou por dar tréguas eram já 2h00 da madrugada de ontem.
Mas, quando tudo parecia mais calmo, o incêndio voltou a reacender na manhã de ontem, pela terceira vez consecutiva na localidade de Porto Carros, freguesia de Murtede. Mais uma vez o cenário se repetiu e as chamas alastraram-se a Ferraria, Portunhos e, já a seguir ao almoço, chegaram, novamente, a Ançã. A zona da auto-estrada foi uma das áreas mais fustigadas pelas chamas.
Foi activado o Sistema Municipal de Emergência e durante muitas horas, bombeiros, populares e funcionários da Câmara de Cantanhede fizeram de tudo para travar o fogo.
Eram cerca de 30 os funcionários da Inova e autarquia, entre eles Jorge Catarino, que durante toda a tarde de ontem estiveram no teatro de operações, tentando por todos os meios apaziguar as chamas. Para além dos meios humanos, a Câmara colocou ainda ao serviço uma retroescavadora e pá, um carro de primeiro combate e ainda cisternas.
Na retaguarda esteve o vereador João Moura com um carro de abastecimento, com água e alimentos, para prestar auxílio aos bombeiros.
Segundo informação do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil, na frente de combate em Porto Carros estiveram 53 bombeiros e 12 viaturas. Já na Granja de Ançã, foram utilizados 4 carros de combate a incêndios, dois meios aéreos e 18 bombeiros.
Em Mira, depois de anteontem se terem vivido momentos muito dramáticos, em que até o Parque de Campismo de Vila Caia teve de ser evacuado, ontem o cenário não foi muito diferente. No limite de concelho, entre Mira e Vagos, as chamas não deram tréguas. No local estiveram 99 homens, 28 veículos e até ao início da tarde 8 aviões, segundo o Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil.

Dois incêndios em Tábua

Também em Tábuas as chamas se fizeram sentir. O alerta para os bombeiros foi dado pouco antes do meio-dia, para a zona de Vale de Taipa, para onde rapidamente foram mobilizados todos os meios da corporação de Voluntários de Tábua.
De acordo com fonte dos bombeiros, apesar da intensidade das chamas, que lavraram ao longo de toda a tarde, atingindo proporções gigantescas, não houve habitações em risco, mantendo-se o fogo sempre dentro da floresta.
A ajudar os soldados da paz de Tábua estiveram os bombeiros de Coja, Arganil, Oliveirinha e Oliveira do Hospital, com um total de 80 homens, apoiados por 19 viaturas, bem como pelas descargas efectuadas por um helicóptero de Santa Comba Dão.
Às 20 horas o incêndios estava controlado, decorrendo as operações de rescaldo, que mantinham no terreno cerca de cinco dezenas de bombeiros.
Um outro incêndio atingiu o concelho de Tábua, na freguesia de Vila Nova de Oliveirinha, para onde foram mobilizados 31 bombeiros e dois meios aéreos. O fogo começou ao princípio da tarde e foi circunscrito por volta das 16h00, mantendo-se no local, durante toda a tarde, meios manteriaes e humanos a garantirem o rescaldo. À noite, por volta das 21h00, as chamas voltaram a reacender-se.

Devido “à extrema gravidade” actual dos fogos
Ministro apela ao “esforço de todos”

O ministro de Estado e da Administração Interna apelou ontem aos patrões para que “libertem” os seus empregados que são bombeiros voluntários para ajudar no combate aos incêndios.
«Apelo a todas as entidades patronais que tenham bombeiros como empregados que os dispensem para que estes se apresentem nos respectivos quartéis para ajudar no combate aos incêndios», disse António Costa, numa conferência de imprensa realizada no Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil (SNBPC), em Lisboa.
As dezenas de incêndios que lavram pelo país obrigam a uma rotação de pessoal, sendo necessária a ajuda de mais bombeiros voluntários para evitar a ruptura. O facto de, em vários locais, nomeadamente no distrito de Leiria, as condições atmosféricas (excesso de fumo) impedirem a utilização de meios aéreos também faz com que seja necessário utilizar mais homens e viaturas. O ministro classificou de «extrema gravidade» a actual situação dos fogos em Portugal Continental, mas lembrou que quinta-feira os bombeiros conseguiram extinguir 411 fogos e que «apenas 16 transitaram para hoje (ontem)».
António Costa realçou ainda a ajuda prestada pelo Exército, que disponibilizou mais 14 pelotões, num total de mais de 400 homens e o apoio da força aérea que, quarta-feira, disponibilizou um helicóptero. «A questão central neste momento é arregaçar as mangas e de uma forma organizada combater os incêndios e impedir que haja vítimas humanas e habitações destruídas», afirmou.
Para o ministro da Administração Interna, a «dimensão gigantesca» dos incêndios exige a presença do maior número de efectivos possível para se fazer a rotatividade de meios humanos e evitar uma «situação humanamente insustentável», devido ao cansaço. «Estamos a viver um período particularmente difícil e peço a ajuda de todos: populações, bombeiros e autarcas», apelou.

Chamas queimaram a “melhor área florestal” da freguesia e só pouparam Rios Frios
“Um pandemónio” em Vil de Matos

Ana Margalho
«Tenho 55 anos e nunca vi aqui coisa semelhante». António Matos, presidente da Junta de Vil de Matos confirmava, assim, o «pandemónio» que se viveu ontem naquela freguesia de Coimbra. As chamas terão eclodido cerca das 14h17 nas traseiras da igreja local, mas ao final da tarde ficava confirmado que apenas a localidade de Rios Frios tinha, ainda, escapado ao fogo.
A extensa nuvem de fumo, vinda da freguesia, era visível em toda a cidade de Coimbra, durante a tarde. «A melhor área florestal da freguesia está ardida», confirmava o autarca, lamentando que o incêndio que, durante a tarde, foi devastando a freguesia, tenha provocado danos no polidesportivo e no posto médico de Vil de Matos. «O calor rebentou com os vidros e derreteu todos os estores do edifício», contou António Matos ao Diário de Coimbra, dando «graças a Deus» por «não haver nem habitações nem vidas em perigo».
O autarca não tem dúvidas. «É fogo posto!», garantiu, recordando-se de «umas brincadeiras» que fizeram na freguesia «durante mês e meio todos os fins-de-semana» e explicando que «este incêndio já é a 13.ª ou 14.ª vez que é reactivado num só dia. Não é normal». E isto apesar de estarmos perante uma frente de incêndio que começou em Cavaleiros (Mealhada), continuou por Portunhos para poente até à chamada Mata da Machada e dali até Vil de Matos, onde as chamas não deram tréguas às três corporações de bombeiros de Coimbra e às populações que se encontraram no local.
Cerca das 19h00, os meios aéreos tinham abandonado o incêndio, mas António Matos dava conta que o fogo estava a reactivar ao início da A-14, com problemas para a circulação automóvel naquela via. Contactada pelo Diário de Coimbra, a Brigada de Trânsito de Coimbra confirmou que, durante a tarde, foi ponderada a hipótese de cortar aquela via de acesso à Figueira da Foz, mas que o trânsito sempre fluiu, embora «com muita prudência e apenas por uma das faixas de rodagem». «Se as chamas continuarem a avançar para a A-14 voltaremos a pensar em cortá-la», garantiu fonte da BT de Coimbra. Contudo, tal não foi necessário, como confirmaria fonte da BT ao início da noite.
Também ontem, um incêndio consumiu cerca de três hectares de mato e eucalipto na Cegonheira, junto à Quinta do Mirante, em Coimbra. As chamas eclodiram cerca das 5h00 e foi considerado extinto às 7h40. Ao local deslocaram-se os bombeiros de Coimbra – Sapadores e Voluntários – e os Voluntários de Brasfemes.

CCDRC alerta populações para possíveis perigos da poluição atmosférica
Limites de ozono ultrapassados em Aveiro, Leiria e Coimbra

A concentração de ozono na atmosfera ultrapassou, durante o dia de ontem, o Valor Limiar de Alerta à População previsto na legislação, podendo afectar populações de vários concelhos dos distritos de Aveiro, Coimbra e Leiria.
Os valores, de mais de 240 microgramas de ozono por metro cúbico, foram registados entre as 15 e as 16h00, nas estações de Teixugueira, em Estarreja (304 microgramas de ozono por metro cúbico de ar) e de Ílhavo/EB 2,3 de Ílhavo (255 microgramas de ozono por metro cúbico de ar). Foi ainda ultrapassado o Valor Limiar de Informação ao Público (189 microgramas por metro cúbico de ar) na Estação de Ervedeira, Leiria, com um valor de 231 microgramas de ozono por metro cúbico de ar.
Esta situação está a afectar vários concelhos da zona centro, nomeadamente dos distritos de Aveiro, Coimbra e Leiria. A informação foi avançada ontem pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC) que alerta as populações para as consequências a exposição a este poluente, nomeadamente ao nível das mucosas oculares e respiratórias, com sintomas como tosse, dores de cabeça, dores de peito, falta de ar e irritações oculares.
Recomenda-se, portanto, que seja reduzida, ao mínimo, a actividade física intensa ao ar livre, que se evite outros factores de risco como fumar ou contactar com produtos irritantes que contêm solventes, que se respeite os tratamentos médicos em curso e ainda que se recorra a cuidados médicos em caso de eventuais agravamentos dos sintomas.