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Após três dias de inferno e outras tantas noites de pânico, os bombeiros conseguiram controlar os principais incêndios que semearam a destruição nos concelhos de Leiria, Pombal e Ourém. Apesar da acalmia, as chamas ainda lavraram em dez distritos, mobilizando muitos meios e levando o medo a inúmeras aldeias.

O dia amanheceu calmo, mas a tarde e o aumento da temperatura, trouxeram vários reacendimentos, que durante a noite mobilizaram 2400 bombeiros, e novos fogos no Centro e Norte do País, mas sem a dimensão dos últimos dias.

Enquanto os bombeiros combatiam as chamas e procediam a operações de rescaldo e vigilância, centenas de pessoas, que por medida de precaução foram evacuadas de aldeias dos concelhos de Leiria, Pombal e Ourém voltaram as suas casas. Alguns depararam-se com o trabalho de uma vida completamente reduzido a cinzas.

A hora é de fazer um primeiro levantamento dos prejuízos. Além de ter consumido milhares de hectares de floresta, queimado culturas agrícolas e descaracterizado uma paisagem até então dominada pelo verde, as chamas destruíram pelo menos 14 casas de habitação em Pombal, 10 em Ourém e igual número em Leiria. Narciso Mota e David Catarino, presidentes das câmaras de Pombal e Ourém, garantem que, por agora, “as pessoas vão ficar alojadas em casas de familiares” e as autarquias ajudar “na reconstrução das habitações”.

“Em 68 anos de vida nunca vi nada assim. O fogo parecia o demónio”, afirma Carminda Jesus Santos, residente em Coucões, Leiria, enquanto deita água num tronco de oliveira que teima em arder. Também ela teve o fogo à porta de casa. Não entrou, mas destruiu-lhe todas as culturas agrícolas. “O que é que eu vou comer agora?”, pergunta.

A região Centro acordou ontem sob um intenso manto de fumo. Apesar da acalmia, os populares não desmontaram a vigilância e prepararam-se para o pior, ligando mangueiras e enchendo depósitos com água. “Daqui o fogo não passa”, diz Duarte Pereira, residente em Cercal, Ourém, enquanto concerta um pequeno motor de rega. E a razão parecia estar do seu lado. É que, apesar de tudo, pelas 20 horas, ainda havia 18 fogos não circunscritos, em 10 distritos, que envolviam no combate mais de 3500 bombeiros. Mesmo assim, foi um dia mais sossegado na região Centro que os últimos três.

PERDEU A CASA E A EMPRESA

“De repente ficou tudo reduzido a cinzas”, desabafa Manuel Casalinho da Silva, de 45 anos, residente em Albergaria dos Doze, que na sexta-feira ficou sem a casa e a carpintaria que lhe dava o sustento. Apesar da ajuda dos amigos foi incapaz de segurar a força das chamas e agora vai ter que ir viver com a filha e a mulher para casa da sogra.

“O fogo era muito violento e destruiu tudo. Entre a casa, maquinaria e madeira vou ter um prejuízo de 500 mil euros”, disse o empresário, que não tinha qualquer seguro e já está a preparar a reconstrução da oficina. Albergaria dos Doze foi uma das freguesias mais afectadas pela vaga de fogos no distrito de Leiria e nem a capela do cemitério escapou à fúria das chamas.

PÂNICO NA AUTO-ESTRADA

Não é só na floresta que o fogo causa pânico. Na A1, uma família de Porto de Mós não ganhou para o susto quando no quilómetro 141 o carro onde seguia se incendiou. “Passámos por uma zona de fogo. Os elementos da Brisa mandaram-nos avançar, mas depois o carro começou a arder. Só tivemos tempo de sair para a rua”, contou Carla Sousa, proprietária do veículo.

GOVERNO RECUSA RESPONSABILIDADE

O ministro da Administração Interna, António Costa, visitou ontem nos centros distritais de protecção civil de Aveiro e de Santarém e, em declarações aos jornalistas, afirmou que o actual Governo não pode ser responsabilizado pelos incêndios, já que herdou o plano do anterior executivo.

“Foram feitas algumas intervenções cirúrgicas, mas o plano de combate a incêndios já estava definido e não havia tempo para o mudar. No Outono, o actual dispositivo vai ser sujeito a uma avaliação”, afirmou António Costa, sublinhando uma ideia que já tinha defendido antes da época de fogos.

“O Governo não pode fazer tudo. Há problemas de educação cívica, em relação à limpeza perto das casas e em relação às obrigações das pessoas. Nao podemos gritar a Santa Bárbara só no momento da intempérie”, disse o governante.

NO TERRENO

ESTRADAS

O trânsito voltou a estar cortado ontem à tarde na A1, entre os nós de Condeixa-a-Nova e Pombal, devido aos fogos. Também na EN 111 e pelas mesmas razões esteve cortada à circulação na Figueira da Foz.

BOMBEIROS

A diminuição do número de fogos registada ontem em relação ao dia anterior deve-se à acção dos bombeiros, dado que as condições meteorológicas se mantiveram, considerou Ferreira do Amaral, director da Autoridade Nacional para os Incêndios.

MILITARES

Desde o início da época de incêndios florestais registou-se a intervenção de 83 pelotões militares em acções de rescaldo e vigilância, por exemplo em Leiria e Pombal.

PINHAL E MATO

Três fogos deflagraram ontem de manhã e ao início da tarde na Área Metropolitana de Lisboa, em Murches, Cascais; Talefe, Ercarnação de Mafra e Arranhó, Arruda dos Vinhos. Em todos arderam pinhal e mato.

FILME DO DIA

07h30: O dia amanheceu com nove incêndios por circunscrever nos distritos de Aveiro, Braga, Coimbra, Santarém e Viseu. Àquela hora encontravam-se no terreno 2357 bombeiros apoiados por 694 veículos e quatro aeronaves. Aveiro com três fogos era o distrito em situação mais complicada.

11h16: A manhã trazia calma à floresta. O incêndio de Arruelas, Figueira da Foz ficava dominado. Na altura eram dois os fogos por circunscrever, ambos no concelho de Ourém, Santarém. Os restantes entravam em rescaldo.

13h00: O mapa dos fogos apresentava sete incêndios: Albegaria das Cabras (Aveiro); Murches, Talefe e Arranhó (Lisboa); Portela do Sobral e Valonga (Leiria) e Resouro (Santarém). As temperaturas já atingiam 35 graus em Coimbra e Castelo Branco.

17h30: A auto-estrada do norte (A1) estava cortada ao trânsito nos dois sentidos, entre os nós de Pombal e Condeixa. O fogo de Portela do Sobral, Pombal, era a situação mais grave. Novos fogos em Oleiros e Figueira da Foz.

20h00: Eram dezoito os incêndios não circunscritos, a maioria de pequena dimensão. As situações mais graves ocorriam na Figueira da Foz, em Soure, em Pombal, em Lordelo e na zona de Oleiros.