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O Plano Municipal de Emergência em Pombal foi activado durante a madrugada de ontem e assim deverá continuar nos próximos dias, até ser reposta a normalidade numa cidade devastada por uma tromba de água que durante a madrugada e manhã de ontem, em especial entre as 01h00 e as 02h30, inundou inúmeras habitações, estabelecimentos comerciais e edifícios públicos.
Várias famílias tiveram de ser retiradas de casa, de barco, pelos bombeiros, chamados a acorrer a inúmeros pedidos de ajuda. Uma mulher, de 86 anos, morreu em casa, na Rua Cancela do Cais, onde os bombeiros foram chamados a socorrer sete moradores, obrigados a fugir perante a súbita subida das águas, que chegou a atingir vários metros de altura.
Segundo apurámos, os bombeiros, que resgataram os habitantes com recurso a uma embarcação, não foram informados a tempo de salvar a mulher, não se sabendo ainda se a morte foi causada por afogamento ou ataque cardíaco.
Um residente, que durante a manhã se encontrava a retirar lama do interior da habitação, contou-nos que o alerta foi dado por volta das 03h30, altura em que a água atingiu rapidamente um metro e meio na sua casa.
Algumas ruas acima, Albertina Oliveira, de 89 anos, foi despertada a meio da noite pelo barulho de conversas vindo da rua. Levantou-se para ver o que se passava, através da janela da cozinha.
"Parecia o mar", conta, explicando que teve "muita coragem", pois a água começou a entrar-lhe em casa pelos canos de esgoto. A solução, conta, foi encher baldes que ia despejando pela janela.
"Que não venha outra coisa assim", disse, contando que nos 45 anos de vida que leva em Pombal já apanhou muitos sustos com a água.


Centro fechado


No final da manhã de ontem, o presidente da Câmara Municipal, visivelmente abatido, fez o primeiro balanço da situação, depois de uma longa noite de vigília. Enquanto se sentava em frente aos jornalistas deixou escapar um desabafo: "Estou mais morto do que vivo". Depois foi enumerando, de memória, o extenso rol dos estragos: da zona desportiva ao Cine-teatro nada escapou a uma noite de chuvas diluvianas.
Segundo explicou Narciso Mota, a situação foi completamente inesperada, até porque na véspera o caudal do rio tinha sido verificado.
Os próximos dias serão de intenso trabalho de limpeza e reparação dos muitos estragos. O centro citadino deverá continuar fechado ao trânsito, pelo que o autarca pelou às pessoas que nos próximos dias evitem idas à cidade.
Também encerradas estiveram as escolas de Pombal, que só amanhã reabrem, o mesmo se passando com o centro de saúde, cujos serviços foram transferidos para o Hospital.
Muitos funcionários da Câmara juntaram-se aos trabalhadores destacados para limpar as ruas, entre eles "alguns pouco habituados a pegar em pás e ferramentas", elogiou o autarca.
Quanto às famílias alojadas temporariamente no centro de exposições - entre as quais cerca de 40 de etnia cigana residentes junto à margem do rio Arunca - já regressaram a casa.
Em relação aos prejuízos, vai ser feito um levantamento, que terá como resultado valores avultadíssimos.


Depois dos fogos as cheias


Depois o flagelo vivido no ano passado em Pombal com os fogos que desalojaram várias famílias, o concelho enfrenta agora a fúria de outro elemento da natureza.
Narciso Mota estabeleceu uma relação entre os dois fenómenos, considerando que a destruição da floresta potenciou as condições para a ocorrência de cheias, uma vez que as condições de infiltração de água nos solos diminuíam, o que faz com que rapidamente atinjam o leitos dos rios, que transbordam.


Alunos resgatados de autocarro arrastado pelas águas


Um grupo de 56 alunos teve ontem de ser retirado de um autocarro pelos bombeiros, depois de a viatura de transporte escolar ter sido arrastada pelas águas do rio Arunca contra uma oliveira, na localidade de Simões, junto à fronteira entre os concelhos de Pombal e Soure.
Conforme nos explicou um pai de um aluno que seguia na viatura, o condutor terá insistido em continuar em frente, numa zona onde a estrada já se encontrava coberta de água, apesar de alguns avisos que alegadamente terá recebido.
No embate, contou-nos Joel Oliveira, um aluno que seguia na viatura, duas janelas partiram-se, tendo muitas crianças entrado em pânico.
O resgate dos ocupantes do autocarro, que seguiam para uma escola particular em Soure, foi feito pelos bombeiros, com recurso a uma embarcação e a uma corda, para que os alunos pudessem sair em segurança.
O acidente, ocorrido às 07h50, causou ferimentos em apenas uma criança.


Registo de estragos


O parque de viaturas dos voluntários de Pombal foi inundado, deixando 16 viaturas inoperacionais. O socorro teve de ser feito com as viaturas que se encontravam na rua e com a ajuda de outras corporações mobilizadas para o apoio.

A cave do edifício da biblioteca municipal ficou inundada, o mesmo acontecendo com o Teatro Cine.

No Pombal Shopping, quatro pisos ficaram submersos (onde funciona o supermercado Pingo Doce), chegando a temer-se que alguém estar morto no seu interior. Por receio que a estrutura fosse abalada pela pressão da água, o edifício foi evacuado e estabelecido um perímetro de segurança, enquanto a água era retirada com cuidado.

As zonas mais afectadas em Pombal foram a Travessa da Sra. de Belém, Avenida Heróis de Ultramar, Praça 25 de Abril, as ruas António Gonçalo Figueira, António Rocha Quaresma, de Leiria, de Santa Luzia, Mota Pinto e o Lago do Cardal. O viaduto Guilherme Santos, que dá acesso à zona da Câmara, ficou cheio de água.

Várias viaturas foram danificadas por serem arrastadas pelas águas. As ruas ficaram cobertas de lama, sendo visíveis grandes áreas sem calçada.

Na zona desportiva os estragos são inúmeros, nomeadamente no pavilhão Eduardo Gomes, no relvado sintético, no parque radical e nos pavilhões de actividades económicas e da Caldeira. As piscinas municipais ficaram submersas.

A maioria dos estabelecimentos comerciais do centro a funcionar em caves ou no rés-do-chão foram afectados, com prejuízos nas mercadorias.

Algumas pontes, que oferecem perigo, nas freguesias de S. Simão, Vermoil, Almagreira e Meirinhas, vão ser avaliadas. EM S. Simão uma travessia foi interditada. Algumas estradas no concelho ficaram danificadas.