incontrolável Pelo menos duas dezenas de casas arderam, ontem, em Pombal Câmara decidiu requerer declaração de calamidade pública
Helena Simão
Há três dias que o fogo lavra, incontrolável, nos concelhos de Leiria e de Pombal. Há três dias que bombeiros e residentes não pregam olho. No terreno, face a um inimigo poderoso e demoníaco, as forças dos homens começam fraquejar. Pede-se fé, para continuar, e um milagre da natureza.
Pelo menos duas dezenas de habitações arderam, nas freguesias de Carnide, Ilha e Albergaria dos Doze, no concelho de Pombal. Em Leiria, na Memória, as chamas engoliram, literalmente, várias casas. Na Serra do Branco, "sem bombeiros e com a água cortada", Francisco Margarido, de 72 anos, viu desaparecer os bens que demorou uma vida inteira a juntar. Em poucos minutos. "O fogo estava dos dois lados da casa, mas pensei que não chegava aqui. Num instante, ardeu tudo...". A vizinha, Francelina Padeiro, foi obrigada a sair de casa. "Já passei por grandes aflições, mas nunca como hoje [ontem]", suspirava. "Estou à espera, a ver o que acontece", disse, entre lágrimas.
Pelo meio-dia, com os termómetros a subir aos 40 graus, as chamas ganharam velocidade e rodearam a povoação de Ruge-Água. Joaquina Fernandes, 94 anos, tinha 18 garrafas de gás em casa. Ao ver o fogo aproximar-se, o neto conseguiu retirá-las a tempo. A idosa foi obrigada a sair, antes que o tecto desabasse e o edifício ficasse reduzido a cinzas. Valentim dos Santos abria a torneira, mas "nem gota de água".
Outro morador, Gil Costa, viu "as labaredas com mais de 30 metros a passar por cima das árvores" "O maior terror da minha vida. Molhei a minha casa e a mim próprio. E meti-me em casa. Se fosse para a rua, tinha morrido queimado". O fogo, imenso e poderoso, após varrer por completo a aldeia, seguiu encosta acima.
A meio da tarde, as preocupações dos bombeiros viravam-se para outra frente, que caminhava em direcção à zona industrial de Albergaria dos Doze. Mais uma vez, as chamas conseguiram chegar primeiro e destruíram uma serração e uma fábrica de móveis. "Não há hipótese de salvar nada", queixava-se um bombeiro. O ar era irrespirável. Um manto de denso nevoeiro abateu-se sobre toda a região. Tal como os corações de muita gente, tudo o que já foi verde é, agora, negro e triste.
Devido à dimensão da tragédia - 13 das 17 freguesias de Pombal foram afectadas - o Conselho Municipal de Operações de Protecção Civil decidiu requerer ao Governo a declaração de calamidade pública.