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Do acidente, ocorrido de madrugada, salvaram-se a bebé, a mãe e uma bombeira, todos com ferimentos ligeiros, tal como as duas ocupantes da outra viatura sinistrada.
"São momentos muito difíceis. Uma grande dor para a corporação. Era um bom amigo, bom homem, experiente e cauteloso", referiu o adjunto de comando, enquanto, a muito custo, tratava da burocracia do acidente no gabinete do comando. Lá fora, junto à entrada principal do quartel e no parque de viaturas, o ambiente era também de grande consternação. Enquanto olhavam para a bandeira a meia haste da corporação, alguns bombeiros colocavam faixas negras nas viaturas em sinal de luto. "Salvou uma vida mas perdeu a dele em missão e a fazer o que gostava", referiu um voluntário.
Leonel Parreira, 56 anos, é a 88ª vítima mortal nos bombeiros portugueses nas últimas três décadas. Com mais de 30 anos de experiência, os últimos cinco como profissional, este bombeiro de 1ª classe – deixa mulher e duas filhas – perdeu a vida no cruzamento do Jumbo, à entrada de Setúbal. Uma viatura ligeira chocou com a ambulância que circulava em marcha de urgência e esta capotou várias vezes. O condutor, que segundo Carlos Simões, pai da bombeira ferida, "não levava cinto", foi cuspido para fora da viatura que capotou. Teve morte imediata.
A ambulância saiu de Grândola pelas 02h40. Pouco depois parou na estação de serviço da A2, em Alcácer do Sal, para que a bebé nascesse. Já estavam a chegar ao Hospital de São Bernardo, em Setúbal, quando foram abalroados por uma viatura ligeira.
Chegada ao local, a PSP transportou, de imediato, a recém-nascida para o hospital de Setúbal envolta em mantas por se encontrar num processo de arrefecimento. As outras vítimas foram também encaminhadas para esta unidade pelos bombeiros sapadores locais.
"BOMBEIRO ERA EXPERIENTE E COMPETENTE"
"Ele era um bombeiro muito experiente e competente. Era a última pessoa que eu esperava que tivesse um acidente destes", disse ao CM o comandante dos Bombeiros Voluntários de Grândola, Ricardo Ribeiro. Leonel Parreira, o bombeiro que faleceu após o choque da ambulância com uma viatura ligeira, já fazia parte da corporação "há mais de 30 anos" e "era uma pessoa muito calma e muito capaz". De acordo com o comandante, na altura do acidente a ambulância circulava em marcha de urgência, pois "a bebé já estava em processo de arrefecimento".
"PARECE QUE ESTAVA A PREVER A MORTE"
Henrique Ramos, adjunto de comando, terá sido dos últimos responsáveis da corporação a falar com a vítima. "Saí do quartel antes da meia-noite. Estávamos todos bem-dispostos. Depois soube da noticia trágica e quando nos toca a nós tudo fica muito difícil", frisou. Companheiros de longa data, Henrique recorda uma conversa que tive com Leonel no domingo. "Ele parece que estava a prever a morte. Ao ler uma notícia de um bombeiro morto em Minde até disse que qualquer dia era ele", referiu.
"ELE IA FELIZ DA VIDA APÓS O PARTO"
Profissionalismo e competência eram a imagem de Leonel Parreira nos bombeiros de Grândola. Homem respeitado nesta vila alentejana, deixou "um vazio" na corporação. "Todos vamos sentir a sua falta. Era um bom profissional, experiente e cuidadoso", referiu ao CM David Santos, presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Grândola, fundados em 1 de Maio de 1949. "Na minha direcção é a primeira tragédia do género. Esta deixa-nos muito tristes porque ele ia feliz da vida depois de ter feito o parto com sucesso", disse.
"MORREU A SALVAR A MINHA BEBÉ"
Quando na manhã de ontem soube que a sua mulher tinha sofrido um acidente a caminho do hospital pressentiu o pior. "Fiquei muito nervoso. Felizmente não lhe aconteceu nada, nem à criança. Mas o bombeiro acabou por perder a vida quando salvava a minha mulher e a bebé a caminho do hospital", referiu ao CM Nelson Constantino, o marido da Carla Pereira, de 28 anos. O casal tem outros dois filhos: Mafalda, de três anos, e o Cláudio, de dois.
Só mais tarde este funcionária da Câmara de Grândola soube que a menina tinha nascido na ambulância, na área de serviço da A2 de Alcácer do Sal . Este é já o segundo filho assistido pelos bombeiros numa viatura da corporação. "O meu filho nasceu quando chegava ao hospital de Alcácer do Sal", referiu. Coincidência é o facto de o bombeiro que ajudou ao parto do pequeno Cláudio, há dois anos, ser o marido da bombeira agora ferida no acidente. "Ficámos próximos e acabámos por o escolher para padrinho. Agora foi a sua mulher que ajudou ao nascimento da minha filha", acrescentou Nelson Constantino, de 35 anos, que só ao final tarde seguiu para a visita no hospital de Setúbal. "Tive que ficar todo o dia a cuidar dos filhos", disse.
"A JOANA TEM MUITOS HEMATOMAS NA CARA E PARTIU DOIS DENTES"
O pai da bombeira ferida, Carlos Simões, estava visivelmente aliviado depois de visitar ontem a filha no hospital de Setúbal. "Apesar de tudo, podia ter sido muito pior", confessou, enquanto explicava ao CM o estado em que a filha tinha ficado. "Ela só se lembra de ver o Jumbo e depois de acordar no hospital. Tem muitos hematomas na cabeça e a cara inchada. Partiu dois dentes e teve de levar pontos nos lábios e nas sobrancelhas". Joana Simões, de 22 anos, não corre perigo de vida.