Sommaire

http://www.pompiers-de-pombal.com/ - Pompiers - Bombeiros de Pombal

Page initiale

http://www.cmjornal.xl.pt/nacional/portugal/detalhe/choque-brutal-mata-bombeiro-apos-parto-em-ambulancia.html

 

 

Choque brutal mata bombeiro após parto em ambulância
Com as lágrimas a escorrer pelo rosto e abraçados em silêncio, o adjunto de comando Henrique Ramos e o segundo comandante Joaquim Duarte espelhavam ontem a dor de todos os bombeiros de Grândola pela brutal morte do amigo e camarada Leonel Parreira, que morreu numa colisão em Setúbal minutos depois de ter vivido um dos melhores momentos da sua vida, ao assistir ao parto de uma menina em plena ambulância.

Do acidente, ocorrido de madrugada, salvaram-se a bebé, a mãe e uma bombeira, todos com ferimentos ligeiros, tal como as duas ocupantes da outra viatura sinistrada.

"São momentos muito difíceis. Uma grande dor para a corporação. Era um bom amigo, bom homem, experiente e cauteloso", referiu o adjunto de comando, enquanto, a muito custo, tratava da burocracia do acidente no gabinete do comando. Lá fora, junto à entrada principal do quartel e no parque de viaturas, o ambiente era também de grande consternação. Enquanto olhavam para a bandeira a meia haste da corporação, alguns bombeiros colocavam faixas negras nas viaturas em sinal de luto. "Salvou uma vida mas perdeu a dele em missão e a fazer o que gostava", referiu um voluntário.

Leonel Parreira, 56 anos, é a 88ª vítima mortal nos bombeiros portugueses nas últimas três décadas. Com mais de 30 anos de experiência, os últimos cinco como profissional, este bombeiro de 1ª classe – deixa mulher e duas filhas – perdeu a vida no cruzamento do Jumbo, à entrada de Setúbal. Uma viatura ligeira chocou com a ambulância que circulava em marcha de urgência e esta capotou várias vezes. O condutor, que segundo Carlos Simões, pai da bombeira ferida, "não levava cinto", foi cuspido para fora da viatura que capotou. Teve morte imediata.

A ambulância saiu de Grândola pelas 02h40. Pouco depois parou na estação de serviço da A2, em Alcácer do Sal, para que a bebé nascesse. Já estavam a chegar ao Hospital de São Bernardo, em Setúbal, quando foram abalroados por uma viatura ligeira.

Chegada ao local, a PSP transportou, de imediato, a recém-nascida para o hospital de Setúbal envolta em mantas por se encontrar num processo de arrefecimento. As outras vítimas foram também encaminhadas para esta unidade pelos bombeiros sapadores locais.

"BOMBEIRO ERA EXPERIENTE E COMPETENTE"

"Ele era um bombeiro muito experiente e competente. Era a última pessoa que eu esperava que tivesse um acidente destes", disse ao CM o comandante dos Bombeiros Voluntários de Grândola, Ricardo Ribeiro. Leonel Parreira, o bombeiro que faleceu após o choque da ambulância com uma viatura ligeira, já fazia parte da corporação "há mais de 30 anos" e "era uma pessoa muito calma e muito capaz". De acordo com o comandante, na altura do acidente a ambulância circulava em marcha de urgência, pois "a bebé já estava em processo de arrefecimento".

"PARECE QUE ESTAVA A PREVER A MORTE"

Henrique Ramos, adjunto de comando, terá sido dos últimos responsáveis da corporação a falar com a vítima. "Saí do quartel antes da meia-noite. Estávamos todos bem-dispostos. Depois soube da noticia trágica e quando nos toca a nós tudo fica muito difícil", frisou. Companheiros de longa data, Henrique recorda uma conversa que tive com Leonel no domingo. "Ele parece que estava a prever a morte. Ao ler uma notícia de um bombeiro morto em Minde até disse que qualquer dia era ele", referiu.

"ELE IA FELIZ DA VIDA APÓS O PARTO"

Profissionalismo e competência eram a imagem de Leonel Parreira nos bombeiros de Grândola. Homem respeitado nesta vila alentejana, deixou "um vazio" na corporação. "Todos vamos sentir a sua falta. Era um bom profissional, experiente e cuidadoso", referiu ao CM David Santos, presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Grândola, fundados em 1 de Maio de 1949. "Na minha direcção é a primeira tragédia do género. Esta deixa-nos muito tristes porque ele ia feliz da vida depois de ter feito o parto com sucesso", disse.

"MORREU A SALVAR A MINHA BEBÉ"

Quando na manhã de ontem soube que a sua mulher tinha sofrido um acidente a caminho do hospital pressentiu o pior. "Fiquei muito nervoso. Felizmente não lhe aconteceu nada, nem à criança. Mas o bombeiro acabou por perder a vida quando salvava a minha mulher e a bebé a caminho do hospital", referiu ao CM Nelson Constantino, o marido da Carla Pereira, de 28 anos. O casal tem outros dois filhos: Mafalda, de três anos, e o Cláudio, de dois.

Só mais tarde este funcionária da Câmara de Grândola soube que a menina tinha nascido na ambulância, na área de serviço da A2 de Alcácer do Sal . Este é já o segundo filho assistido pelos bombeiros numa viatura da corporação. "O meu filho nasceu quando chegava ao hospital de Alcácer do Sal", referiu. Coincidência é o facto de o bombeiro que ajudou ao parto do pequeno Cláudio, há dois anos, ser o marido da bombeira agora ferida no acidente. "Ficámos próximos e acabámos por o escolher para padrinho. Agora foi a sua mulher que ajudou ao nascimento da minha filha", acrescentou Nelson Constantino, de 35 anos, que só ao final tarde seguiu para a visita no hospital de Setúbal. "Tive que ficar todo o dia a cuidar dos filhos", disse.

"A JOANA TEM MUITOS HEMATOMAS NA CARA E PARTIU DOIS DENTES"

O pai da bombeira ferida, Carlos Simões, estava visivelmente aliviado depois de visitar ontem a filha no hospital de Setúbal. "Apesar de tudo, podia ter sido muito pior", confessou, enquanto explicava ao CM o estado em que a filha tinha ficado. "Ela só se lembra de ver o Jumbo e depois de acordar no hospital. Tem muitos hematomas na cabeça e a cara inchada. Partiu dois dentes e teve de levar pontos nos lábios e nas sobrancelhas". Joana Simões, de 22 anos, não corre perigo de vida.