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Os concelhos da Figueira da Foz, Viseu, Carregal do Sal e Pombal foram os mais atingidos ontem pelos incêndios florestais, que, além de terem destruído uma vasta mancha florestal, causaram ferimentos em pelos menos 32 bombeiros e vários populares. Às 20h00, 1790 bombeiros ainda combatiam cinco fogos por circunscrever. Eram apoiados por 474 viaturas.
Na Figueira da Foz, as chamas destruíram a Serra da Boa Viagem (foi o pior fogo que atingiu a zona desde 1993) e feriram 20 ‘soldados da paz’, que na maioria registaram problemas ao nível dos olhos.
Maria Isabel Marques, de 55 anos, lamenta a perda de 200 fardos de palha, “toda a comida que tinha para os animais”. Mas o pior foi a morte de um cão: “No meio da confusão, esquecemo-nos do cãozito. Quando fomos à procura demos com ele morto dentro de um bidão onde se tinha escondido”.
Adelaide Abreu, de 64 anos, também perdeu “um par de cães, que ficaram queimados”, mas, apesar de tudo, diz que “com um incêndio tão grande foi um milagre não ter havido mortos nem casas ardidas”.
À semelhança destes populares, também Aurora Teixeira, de 80 anos, não tem memória de um incêndio igual. “Nem o de 1993, que também foi um pesadelo!”, exclama.
António Bernardes, comandante operacional do distrito de Coimbra, considera que a série de fogos “não é uma situação normal”. O presidente da Câmara, Duarte Silva, é mais claro: “Não acredito em fogos espontâneos, até porque é estranho começarem aos fins-de-semana”. As chamas – também combatidas por 33 militares – deflagraram no domingo à tarde, em Vale do Jorge, e foram dadas como extintas pelas 19h00 de ontem.
Em Viseu, doze bombeiros foram ontem de madrugada assistidos no Hospital S. Teotónio, devido a intoxicações, irritações oculares e entorses, causadas quando combatiam um fogo que deflagrou em Remonde e Santos Evos. O incêndio que desde domingo de manhã rondou várias aldeias em Viseu foi dominado ao início da tarde de ontem.
O fogo que eclodiu em Azenha, Carregal do Sal, propagou-se, entretanto, aos concelhos de Santa Comba Dão e Tábua (Coimbra). As chamas obrigaram à retirada, por precaução, de 14 idosos de um lar e de 20 crianças de uma associação que cuida de deficientes.
POMBAL EVACUA ESCOLA
A Escola Básica de S. Francisco, no concelho de Pombal, foi ontem de manhã evacuada, por precaução, devido a um incêndio que deflagrou no sábado na freguesia de Santiago de Litém. Anteontem, já tinham sido evacuadas três habitações em Vale dos Bacharéis. O presidente da Junta de Santiago de Litém, Guilherme Domingues, informou que nestes três dias já ardeu metade da área florestal da freguesia, que tinha sido poupada em Agosto. Para o autarca, há “interesses instalados com objectivos económicos” que explicam o sucedido. “Só a acção humana criminosa pode ter provocado isto”, acusou. O vento dificultou a acção dos bombeiros, que só ontem contaram com meios aéreos e conseguiram circunscrever o incêndio. Segundo Guilherme Domingues, “houve situações de grande risco”, mas não arderam casas.
OUTUBRO DE ALTO RISCO COM CENTENAS DE FOGOS
Figueira da Foz, Viseu, Coimbra podem ter sido os incêndios mais graves, mas não foram os únicos a abalar Portugal no primeiro fim-de-semana de Outubro. Ao todo, ocorreram 546 fogos florestais nas primeiras 48 horas do mês – mais de um terço do total registado em todo o mês de Outubro do ano passado, um dos mais graves dos últimos cinco anos. Números que, a julgar pela previsão meteorológica para os próximos dias, com a subida das temperaturas máximas, podem disparar. Ontem, a Agência Para a Prevenção dos Incêndios Florestais anunciou a prorrogação do período crítico até 15 de Outubro, devido “ à conjugação de condições meteorológicas extremamente favoráveis à ocorrência de incêndios”. Na prática, e nesse período, mantém-se a proibição de queimadas e de lançamento de foguetes em vigor no Verão.
FACTOS
ALTO RISCO A NORTE
Cinco distritos do Norte do País estão hoje em risco “máximo” de incêndio: Viana do Castelo, Braga, Porto, Bragança e Viseu. Situações mais favoráveis ocorrem em Portalegre (risco reduzido) e em Beja (moderado). Vila Real, Setúbal e Faro estarão em risco elevado e os restantes distritos em risco muito elevado.
SUSPEITA DE CRIME
O coordenador da Protecção Civil e Bombeiros de Coimbra, António Bernardes, reclamou ontem uma investigação aos 14 fogos que desde sábado atingiram os concelhos da Figueira da Foz, Soure e Montemor-o-Velho. O responsável suspeita de intervenção criminosa nos incêndios, em pontos distantes, o que dificulta o combate.
AVIÃO ESPANHOL
Um avião pesado oriundo de Espanha esteve ontem a combater as chamas na Figueira da Foz, juntando-se a dois Canadair e um avião ligeiro portugueses. O presidente da autarquia, Duarte Silva, lamentou que os meios aéreos não tenham actuado mais cedo, mas reconheceu que havia outras ocorrências no País.