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As correntes das águas passaram com tal furor que arrastaram tudo o que encontraram nas ruas e avenidas de Pombal. Automóveis, pedras dos lambris das praças, calçada, tudo mudou de lugar. A água entrou em todas as habitações nas zonas mais baixas. O caos atingiu tais proporções que o presidente da câmara, Narciso Mota, decretou o encerramento ao trânsito automóvel durante uma semana.

A população viveu horas de pânico. Uma idosa morreu acamada, enquanto a vizinhança era socorrida . O atendimento no centro de saúde passou para o hospital porque o edifício ficou inundado. Famílias de sete casas foram retiradas pelos bombeiros e mais quatro dezenas de famílias ciganas também tiveram de sair do acampamento, além dos residentes no prédio do shopping.

"Peço que ninguém venha à cidade, porque a cidade não pode receber as pessoas e que as que cá moram não saiam de casa" foi o alerta dramático do autarca. O apelo tinha em vista garantir "condições de segurança", disse Narciso Mota lembrando que "nos próximos dois dias, os alunos não precisam de ir às escolas".

Mas os problemas de segurança rodoviária são igualmente graves. Narciso Mota disse que é preciso inspeccionar as pontes nos lugares de S. Simão, Vermoil, Meirinhas e Almagreira. "Até que todas as vistorias sejam feitas, a cidade vai ficar fechada." Serviços de telefones, energia eléctrica, gás e águas foram afectados.

Na Rua da Cancela do Cais, as casas são baixas. Rodolfo Freitas mora no primeiro prédio que tem dois andares. A parte de cima escapou, em baixo varria a lama, descalço. O resto da rua continuava com água até à beira dos telhados. Na mesma zona, o quartel dos bombeiros estava inundado, 16 carros ficaram imobilizados. Tiveram de ser outras corporações a levar socorros. Cerca do meio-dia, protecção civil e bombeiros tentavam retirar os milhões de litros de água que enchiam as caves do centro comercial. Receavam que ao esvaziá-lo o edifício implodisse.

Autocarro escolar submerso

Mais de meia centena de alunos da escola C+S Martinho de Árias ficaram presos na cheia do rio Arunca cerca das oito da manhã. Os miúdos mais pequenos entraram em pânico quando o condutor perdeu o controlo do autocarro e foi bater numa oliveira. "Foram os alunos que alertaram os pais", disseram o Joel Oliveira e o Emanuel Silva ao DN, dois jovens que iam no autocarro. 56 crianças tiveram de ser retiradas com barcos, puxados por cordas e ao colo dos bombeiros. O motorista foi resgatado de helicóptero.

Esqueceram a "tia Amélia"

"A tia Amélia", era assim que o jovem vizinho Rodolfo a nomeava, morreu nas enxurradas. Aos 86, estava acamada e morava num rés- -do-chão. Os vizinhos foram retirados das suas residências pelos bombeiros mas ninguém se lembrou de os avisar que havia uma idosa.

Os bombeiros dizem não saber se morreu de "ataque cardíaco" ou se de afogamento. Rodolfo diz que a viu sair na maca e achou que estava morta. Em Leiria, as águas do rio Lis saíram das margens, inundando as casas e as empresas da zona da ponte das mestras. Muitas moradias estavam submersas ao fim da tarde.

De fita métrica na mão

Ontem em Tomar todas as conversas tinham fita métrica. "Já desceu dez centímetros", diz um transeunte vigilante. António Oliveira acede. Entaipou a ourivesaria de manhã, com sacos de areia e tapumes fornecidos pela câmara. À tarde, juntou-se com a mulher à pequena multidão que foi ver o Nabão sobressaltado dentro do seu leito.

Com o trânsito do centro histórico da cidade cortado, o rio carregado com as suas águas e as dos ribeiros que escorrem de Ansião e Pombal, fez a banda sonora da cidade. "É o mar na cidade", diz Joana Simões.

Os raios de sol iluminaram, já a meio da tarde, as operações de limpeza da autarquia e dos bombeiros. Um braço metálico apanhava as árvores que, inteirinhas, eram puxadas pelas ganas das águas castanhas. Os tomarenses conviveram nas margens do rio, passearam pelo Mouchão, alguns de máquina fotográfica em punho. Os mais velhos lembraram a grande cheia de 1989. Laurinda Morgado trabalhava no centro histórico. A subida das águas "não demorou mais de 15, 20 minutos." Quando foi hora de regressar a casa, na outra margem, eram barcos que navegavam nas ruas. E uma retroescavadora do exército, de que apanhou boleia. Apesar das peripécias, Laurinda sorri. Parece saudosa. "Foi uma aflição, mas foi lindo, a cidade com barcos."