Sommaire

http://www.pompiers-de-pombal.com/ - Pompiers - Bombeiros de Pombal

Page initiale

A cidade dormia serena e inocentemente quando a catástrofe chegou às portas dos seus habitantes. A gigantesca tromba d’água que se abateu sobre Pombal, na madrugada de terça para quarta, foi um fenómeno do qual ninguém se recordava. Nem mesmo os mais antigos tinham lembranças de uma força tão destruidora que, para além de bens, arrastou consigo uma vida e deixou várias pessoas assustadas e com um sentimento de impotência perante a hecatombe.
A chuva intensa que caía durante a noite de terça-feira não ofereceu nenhum indício do que iria se passar na cidade. Foi a partir da 01 hora que a água começou a descer com força pela Avenida Heróis do Ultramar, em direcção ao Largo do Cardal, penetrando em várias ruas e artérias transversais. Em menos de uma hora, o túnel que existe por baixo da Linha do Norte já se encontrava completamente submerso e pouco faltava para o próprio Rio Arunca galgar as pontes.
Pouco a pouco os populares começaram a concentrar-se junto aos limites das águas e a trocar informações. A preocupação aumentava perante a impossibilidade de, pelos vários acessos que existem, chegar ao centro da cidade. “Como estará a minha loja?”, questionava um homem e, como ele, várias outras pessoas tentavam adivinhar como estariam os seus estabelecimentos e, até mesmo, casas.
O Plano Municipal de Emergência de Pombal foi accionado às 05 horas, depois de uma reunião com vários responsáveis pela Protecção Civil local e distrital. Várias equipas começaram a percorrer o concelho, numa tarefa dificultada pela ausência de energia eléctrica, telefones e mesmo a inundação do quartel dos Bombeiros Voluntários de Pombal, que viram algumas das suas viaturas serem alagadas.
O dia amanheceu e o que seria apenas mais um dia de trabalho normal para muitos, acabou por ser o início de inúmeros dramas. Os maiores desenrolavam-se, em directo, junto ao Pombal Shopping, que atraía a atenção de várias pessoas, mesmo as que não tinham lojas ou viaturas no local. Os quatro pisos existentes abaixo da quota zero encontravam-se completamente inundados – a estimativa era de 30 viaturas naquele estacionamento – sem contar as lojas de cave, com destaque para o “Pingo Doce”.
Júlia Liberal, proprietária de uma agência de viagens nesse piso do Pombal Shopping, era a imagem da desolação. “É o fim do mundo. Fiquei sem nada. Ainda não consegui ver a minha loja. Estou há 24 anos em Pombal e nunca vi nada assim. A minha vida, em termos profissional, ficou destruída”. E chorou. Lágrimas amargas também eram deixadas por outros lojistas, que chegaram a pegar em vassouras para tentar limpar as suas lojas. Às 11h50 foram evacuados perante o perigo de derrocada do edifício do Pombal Shopping. Posteriormente, os habitantes dos edifícios vizinhos também foram informados da necessidade de abandonar as casas, enquanto persistir o perigo. Este era ainda o cenário à meia noite de quarta, hora de fecho desta edição especial.
Um pouco por todo o lado, era visível o rasto da destruição. De carros arrastados a pedras, ramos de árvores e muita, muita lama. Jornalistas de meios de comunicação de todo o país entrevistavam e fotografavam populares e entidades, enquanto helicópteros faziam a transmissão daquele cenário dantesco em directo. Pouco a pouco várias informações começavam a circular pela cidade. Da idosa de 86 anos que morreu aos problemas enfrentados pelas freguesias vizinhas, como a ponte interditada em São Simão de Litém, e outras sinalizadas como “em risco”, nas freguesias de Vermoil e Almagreira.

Prejuízos incalculáveis
Com a devastação, a maior parte dos serviços de Pombal – públicos e privados – não funcionaram. Para alguns, a previsão era mesmo o encerramento durante, no mínimo, três dias. Entre eles o Centro de Saúde de Pombal, cujo serviço foi transferido para o Hospital Distrital de Pombal; e as escolas. De ressaltar ainda que, de acordo com Narciso Mota, a ETAR de Pombal encontrava-se “inundada” e não estava a funcionar, sendo os prejuízos “incalculáveis” em todo o concelho.
Na conferência de imprensa, efectuada às 13 horas, o autarca confessou que o seu objectivo era “tentar tornar a cidade acessível para os peões” e que, para isso, o trânsito automóvel no centro estará condicionado. Narciso Mota chegou mesmo a endereçar um apelo para que as pessoas dos lugares limítrofes “não venham para Pombal” até tudo estar limpo.
Ainda durante a conferência de imprensa foi transmitido que cerca de 40 famílias, a maioria de etnia cigana, estiveram alojadas no Expocentro.Contudo, à tarde muitos já tinham retornado às suas casas, junto ao Arunca. A Segurança Social também disponibilizou psicólogos clínicos para apoiar emocionalmente a população mais afectada.
Segundo Armando Ferreira, da Protecção Civil de Pombal, a inundação não se deveu ao transbordar do rio Arunca, mas sim, à gigantesca quantidade de água que caiu num espaço mínimo de tempo. “Ainda não fizemos a verificação do índice pluviométrico, mas os números devem ser assustadores. Ainda mais, porque não há na memória de nenhum pombalense, um caso como este”.