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As feridas no corpo já cicatrizaram, mas as da alma continuam abertas. É o que conta Carlos Manuel Mendes Cardoso, de 59 anos, que durante 13 anos esteve inscrito na secção do Louriçal dos Bombeiros Voluntários de Pombal. Num dos últimos grandes incêndios ocorridos no concelho, em Julho de 2002, Carlos Cardoso foi atropelado por uma viatura da corporação e teve múltiplos ferimentos, estando meses em convalescença. Acredita que, se hoje está melhor, não foi graças ao apoio dos bombeiros. “É indigno que uma associação, que se diz humanitária, proceda assim a quem dá o corpo como voluntário para salvar vidas e haveres”.
Carlos Cardoso é reformado dos CTT e conta que “há 13 anos deixei a família para acompanhar os bombeiros na secção do Louriçal. Fui chamado para tudo e nunca faltei aos piquetes, com excepção de um ou dois. Sou auxiliar de motorista que, aqui na secção, são como do quadro activo”, conta. E relembra o acidente que teve durante o incêndio que lavrou nos Ramalhais, freguesia de Abiul, em 31 de Julho de 2002: “Às 18 horas aconteceu esta desgraça. Não culpo nem nunca culpei ninguém, mas o carro andou para trás e eu fiquei. Tive múltiplas fracturas, uma perfuração junto ao ânus que me obrigou a andar com um saco durante nove meses e fiquei hospitalizado mais de 40 dias”. O antigo bombeiro conta ainda que “minha mulher só ao fim de quatro horas soube do acidente por pessoas alheias aos bombeiros. É uma irresponsabilidade total”.
De acordo com Carlos Cardoso, na declaração do seguro consta que havia “um indivíduo a indicar uma manobra e que ficou entalado entre uma pedra e carro. Não foi como eu fiquei. Ninguém me perguntou nada como foi e até hoje não houve um inquérito. Dá a impressão que ficou um cão debaixo do carro”. Carlos Cardoso conta ainda que esteve “em risco de pagar o tratamento, quando o seguro devia ser da própria viatura ou de trabalho” e que “em Novembro do mesmo ano o médico do seguro passou um boletim de alta, “entregue em Pombal, onde diz que após a alta fico em perfeitas condições físicas e anatómicas”. A mágoa estende-se também a Paulo Roque, chefe da Secção do Louriçal. Carlos Cardoso conta que, quando se apresentou, de início Paulo Roque “não quis pôr-me na escala” mas passado algum tempo “disse-me que tinha estado a pensar e que tinha decidido colocar-me ao serviço”.

Nunca mais

Depois de uma entrevista ao jornal Correio da manhã, em 20 de Julho de 2003, onde “elogiava as chefias, sou proibido de fazer todo e qualquer serviço. Não afixaram uma ordem a dizer o porquê da proibição. É uma situação caricata, porque dei a entrevista com o conhecimento do comando”, conta Carlos Cardoso, desabafando que “já chorei muito por isso. Acho que não merecia isso e a prova está aqui”, afirma, mostrando medalhas e até uma placa de reconhecimento.
Depois de muitas vezes ir a Pombal saber o que se passava e ninguém dizer nada, “fui aconselhado por um elemento da direcção dos BVP a pedir a passagem para o Quadro de Honra. Enviei o requerimento para os serviços no dia 07 de Agosto de 2003 e até hoje não tive mais conhecimento do caso”.
A amargura de Carlos Cardoso revela-se ainda mais quando conta que “a certa altura, ainda a andar com o saco à cintura, fui a Pombal falar com o presidente Carrilho e o coronel Mota. Tendo pedido ajuda a resposta pura e simples de José Manuel Carrilho foi: ‘O que é que o senhor quer que a gente faça? Não somos médicos’”.
Carlos Cardoso garante que não volta “nunca mais” à corporação, apesar de dizer que, “deixo de ser bombeiro fardado, mas se acontecer algo volto a sê-lo de corpo e alma. Não pelos bombeiros, mas por humanidade”.

José Manuel Carrilho
“Disponibilizei-me sempre para ajudar”

O presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Pombal, José Manuel Carrilho, contactado pel’O ECO, lamenta “esta atitude do Sr. Carlos Cardoso” e lembra que há vários meses não é contactado por ele, desconhecendo o que se passa com o seu pedido de ingresso no Quadro Honorário, competência que diz respeito ao Coordenador Distrital. Esse ingresso é do Comando da nossa Corporação. Quanto à resposta que terá dado a Carlos Cardoso, Carrilho justifica que a mesma resultou da “muita insistência por parte do Sr. Cardoso, em que eu visse o saco e toda a parte ensanguentada, tendo-lhe dito com vigor, que o que havia a fazer era resolver o assunto de imediato, junto da médica de família ou na urgência do Hospital, para que um profissional de saúde devidamente habilitado, verificasse o estado do doente e o pudesse encaminhar de imediato para a operação”. “Disponibilizei-me enquanto Presidente da Direcção e pessoalmente para o que fosse possível ajudar. O Sr. Cardoso sabe-o muito bem”, lembra José Manuel Carrilho, considerando que este seria uma assunto para tratar “no seio da nossa associação”.

Leal e Roque comentam

O ECO contactou igualmente o então comandante dos Bombeiros Voluntários de Pombal, Manuel Leal, bem como o chefe da 6ª Secção do Louriçal, Paulo Roque. Manuel Leal afirmou que “logo no primeiro momento que o senhor Carlos Cardoso pediu a passagem para o quadro honorário foi enviado para a inspecção tal pedido. Como ele não tinha anos suficientes para passar ao quadro honorário, era preciso passar um documento pelo comando e só mais tarde é que fui informado sobre a necessidade de tal requerimento, que fiz”.
Manuel Leal explica que a substituição do coordenador distrital atrasou o processo e que, “ao entrar José Manuel Moura, foi solicitado que visse o processo que lá estava, e mais uma vez foi dito que não era possível sem uma declaração do comando, que eu já tinha passado e que provavelmente não estava anexada. Fiz outra declaração, a pedido de José Manuel Moura, que deu despacho agora no mês de Maio. Logo que recebi o ofício com o despacho, imediatamente pedi o contacto do senhor Cardoso que respondeu que já sabia que tinha passado ao Quadro de Honra, o que me surpreendeu”. Manuel Leal afirma ainda que foi visitar Carlos Cardoso ao Hospital e que, “inclusivamente, houve o cuidado imediato de pôr um telemóvel da associação à disposição dele. Sempre reforçava aos bombeiros para que fossem ver o Cardoso e saber se alguma coisa era necessária”.
Já Paulo Roque lamenta algumas afirmações e acrescenta que deseja a Carlos Cardoso “o dobro do que ele me deseja a mim. Nunca deixei de falar com ele, tenho a consciência tranquila e não guardo rancor”. O responsável pela secção do Louriçal confirma ter dito que “não ia pô-lo na escala”, e que “na minha maneira de ver, o relatório do seguro não diz que está apto a exercer aquela actividade”, mas acrescenta que “depois voltei a incorporá-lo. Encontrava-me em férias no Algarve e quando voltei disseram-me que o comando tinha proibido”.