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Dor e pânico

Concelho viveu momentos de aflição com os fogos

 

O imenso verde que ainda há poucos dias salpicava o concelho de Pombal foi parcialmente reduzido a cinzas no final da semana passada. As chamas de quinta e sexta-feira passadas deixaram um manto de destruição em 13 das 17 freguesias do Município e trouxeram a dor a muitas famílias, que viram diversos bens serem literalmente engolidos pela fúria do fogo.
De acordo com um levantamento provisório feito pela autarquia, 110 quilómetros quadrados foram destruídos pelos fogos que lavraram quinta e sexta-feira, atingindo cerca de um quarto da área florestal do município, disse à Agência Lusa Narciso Mota, que criticou ainda a actuação dos meios de protecção civil, nomeadamente no que se refere aos meios aéreos. O autarca avança com as críticas e diz mesmo que na quinta-feira, “tínhamos 18 fogos ao mesmo tempo, mas não contámos com nenhum meio aéreo”, ao contrário do que, segundo afirma, terá acontecido em Soure, que, “com apenas um fogo, teve seis aviões e helicópteros”. Perante a situação, o edil não tem dúvidas de que “se eu não acciono o plano municipal de emergência, o parque industrial Manuel da Mota tinha ardido”.
Nos dois dias de incêndios, várias casas habitadas e desabitadas, animais, armazéns, arrecadações e alfaias agrícolas foram totalmente consumidos pelo fogo implacável que lavrou intensamente durante aqueles dois dias. Diversas famílias ficaram sem qualquer forma de sustento, já que os próprios campos agrícolas não foram poupados.

Falta de apoio às populações
Num dos extremos da freguesia de Pombal, no lugar de Mendes, Alzira Alberto ainda não esqueceu o dia 4 de Agosto. Não estava em casa quando as chamas se aproximaram e, por isso, diz que “se não fosse o meu genro ardia-me tudo”. O cenário era devastador e reduziu a cinzas as construções anexas à casa de habitação, onde se encontravam colheitas, alfaias agrícolas e galinhas. “Nem a vaca escapou”, tendo ficado com diversas queimaduras, diz, mas lembra que agora também não tem o que lhe dar para comer. A intensidade das chamas destruiu ainda as janelas da parte traseira da casa.
Com lágrimas nos olhos, Alzira Alberto e o marido exibem os estragos provocados pelo fogo. Alguns familiares, que ali se deslocaram para saber como se encontrava o casal, não pouparam críticas à Câmara e Junta de Freguesia, por ali não terem enviado técnicos para dar apoio psicológico às famílias afectadas. Além disso, há casos como o de um outro vizinho que tem ainda, no estábulo, por enterrar, diversos bovinos, à espera que venham ao local os técnicos, já que os animais estão, como dizem, “declarados”.

Duas casas ardidas na Ilha
Mais à frente, já na freguesia da Ilha, arderam duas habitações, uma delas habitada por uma senhora, que está, neste momento, em casa da filha. A outra estaria, ao que apurámos, desabitada. Ardeu ainda a cozinha de uma terceira habitação, em Chã da Ilha, na Rua dos Gaspares, estando a Junta de Freguesia a apoiar, com materiais, a reconstrução da mesma. De acordo com o autarca local, Carlos Domingues, um terço da mancha florestal da freguesia foi devastada.
Já na Mata Mourisca, ardeu uma extensa área de floresta, barracões agrícolas e alfaias, tendo sido evacuados, por prevenção, os idosos do centro de dia. António Fernandes, presidente da Junta, diz que a mobilização da população conseguiu evitar o pior.

Drama em Carnide
A freguesia de Carnide foi das mais afectadas pelos incêndios. Quase toda a área de floresta foi destruída, mas o mais grave foi o número de casas atingidas e que deixaram várias famílias sem tecto. Segundo Eusébio Rodrigues, presidente da autarquia local, arderam, no total, 11 habitações, seis delas habitadas e cinco desabitadas, encontrando-se as famílias afectadas a residir em casa de familiares. Perante o cenário que se viveu na sexta-feira, parte da população foi evacuada para a Zona Desportiva de Pombal.


Carpintaria destruída em Albergaria dos Doze
E se o pânico era nota de ordem em Carnide na sexta-feira, o mesmo se pode dizer de Albergaria dos Doze, outra das freguesias severamente castigadas. O Lar de S. Pedro chegou também a ser evacuado, sendo encaminhados para Pombal os utentes mais independentes, enquanto que os restantes ficaram no lar de S. José, em São Simão de Litém, segundo a assistente social daquela instituição. “Procurámos, tanto quanto possível, que eles não se alarmassem”, refere a mesma técnica, algo que se tornou complicado quando as chamas chegaram mesmo ao jardim das instalações.
A situação mais grave foi vivida por Manuel Casalinho e pela esposa Fernanda Gameiro. O casal e a filha ficaram sem nada, depois da carpintaria e da casa onde residiam ter sido reduzida a cinzas.
Ao início da tarde de sexta-feira passada, a zona industrial da freguesia encontrava-se cercada pelas chamas. A população chegou a temer o pior, dado que o fogo se aproximou de uma fábrica de móveis, repleta de tintas, diluentes e outras matérias inflamáveis, bem como de uma outra unidade industrial de fabrico de plásticos. Mas a maior das preocupações voltava-se para a fábrica de resina e, por entre os populares, havia quem dissesse que “se o fogo lhe pega, morremos todos”.
Passado o susto, Rita Leitão, de 30 anos, diz que agora, quando pensa naqueles momentos, “até acho que nós estávamos bastante calmos”. O mais complicado, diz, foi “quando me começou a arder a palmeira do jardim”. Aliás, “não há palavras para explicar”.
A calma de Rita Leitão contrastou com o pânico de Manuel Pinto, de 67 anos. Ainda não refeito da angústia vivida, conta que foi graças ao genro que a casa se salvou. Não culpa os bombeiros porque tem consciência que fizeram o que puderam.
A mobilização popular foi, aliás, a principal arma de combate aos incêndios, devido à escassez de meios.
M.F