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São onze da manhã quando acordo, agarrada à canadiana (acessório obrigatório
após um episódio doloroso mas caricato, em volta do stand do jornal), dando a
volta vagarosamente por fora da casa (as escadas eram ainda um obstáculo a mais
tarde vencer) e deparo com uma enorme chaminé de fumo “lá para os lados de
Leiria”. Tudo calmo. Ninguém aparenta qualquer olhar nervoso, por muito
miúdo. Três da tarde. Pura curiosidade, espreito por todas as janelas,
notando a presença de mais quatro finas colunas de fumo. Cinco da tarde.
Passeio até casa dos meus avós, conversando um pouco, notando a escuridão do
fumo e folhas de eucalipto queimadas voando pelo ar. De volta a casa peço ao meu
pai para regar o jardim, pode ser que a humidade no ar dissipe o fumo, que
causava tosse. Dor de garganta. Ardor. Seis da tarde. Completamente rodeados
por ar escuro – irrespirável, minimamente iluminados pelo sol vermelho –
espelhando o fogo, troco o apoio da muleta por uma mangueira, jorrando água nas
traseiras do vizinho. Sete da tarde. Notado o meu cansaço, pedem-me para ir
para casa, tomar conta dos primos gémeos, enquanto os pais vão a casa tentar
salvar os haveres – as frentes vinham naquela direcção. Mas a dúvida sustém-se.
Como é que se explica a crianças de quatro anos que “o fogo não vai matar as
casas”?! Às oito não me deixam ver o noticiário, preferindo bonecos de
pelúcia a cantar na Dois. Entretanto, aparece o avô das crianças, levando-os
para sítio (com certeza) mais seguro. Pego numa máscara e abandono a casa.
Decido ir de novo a casa dos meus avós e deparo com a escola primária a ser
engolida por chamas vivas e a descer a encosta (outrora) verde na nossa
direcção. Não me reconheci. Desato a gritar em estado de choque. Correndo.
Ignorando as dores. Tentando por tudo que o fogo não “mate” nada… Persigo a
minha irmã com um balde. Estou magoada mas não sou inútil. Cheios, são atirados
no alcatrão, não podemos. Temos de fugir. Empurro o meu avô que teimosamente não
quer sair do que é seu, da estrada, agarrado aos haveres. Achando inútil ir
embora… De torneiras, luzes, portas e portões abertos, entramos com a minha
tia nos três carros e seguimos em direcção à segurança, num local ainda
desconhecido. Estradas impedidas e cortadas. Abandonando toda uma vida para
trás. Nem comprimidos tive tempo para buscar. Dentro do carro apenas com a minha
mãe, arranco o terço tão característico do retrovisor e começamos a rezar, em
desespero e a chorar desalmadamente. O local da segurança alcançado foi o
restaurante S. Francisco (que santo protector!) no Barracão. O meu pai voltou
a casa e não atendeu o telemóvel durante horas, fazendo frente às chamas,
protegendo as casas, apenas com o vizinho e as mangueiras disponíveis. Só agora
me lembrava das infindáveis vezes que arrumava o meu quarto, terramoto
permanente. Da minha almofada. Das minhas fotografias. Dos meus livros. De tudo
o que tinha comprado mas não dado o devido valor. Uma da manhã. Após um
telefonema rápido do meu pai, esperámos que ele chegasse até nós, desconhecendo
que caminho estaria desimpedido. De volta a casa, de volta ao lar, sente-se um
alívio por entre o fumo espesso, impossível e inacreditável. Após dois
reacendimentos, todos são vencidos pelo cansaço, deleitando o sono no sofá.
Menos eu. Em constante sobressalto, percorro incontáveis vezes as janelas, qual
farol ou radar. Sete e meia da manhã. Troca-se de guarda. A minha irmã
assume a posição enquanto eu durmo a sesta, interrompida pela dificuldade em
respirar. Desumanos os engravatados que aproveitam o momento para brilhar,
supor, culpar, responsabilizar… A dor é apenas de quem a sentiu.
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