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O centro da cidade vazio, as nuvens de fumo que cobriam o horizonte e as cinzas que caíam do céu indicavam que uma grande calamidade estava a atingir Pombal. Desde a passada quinta-feira, e durante três dias, foram registados dezenas de incêndios, a maioria em simultâneo. Das 17 freguesias do concelho de Pombal, apenas quatro escaparam ao rasto de destruição que levou mesmo ao pedido de Declaração de Calamidade Pública. Mais de uma dezena de habitações destruídas, inúmeros anexos e barracões, para além de armazéns e outros bens, como animais e viaturas não escaparam à fúria das chamas.
A população praticamente não conseguiu fechar os olhos durante esses quatro dias, uma vez que os meios de combate aos fogos eram claramente insuficientes. Muitas foram as localidades onde as chamas tiveram que ser controladas pelos próprios habitantes, uma vez que nem um bombeiro apareceu. De acordo com o comandante dos Bombeiros Voluntários de Pombal, Armando Ferreira, “era impossível responder a todos os incêndios, ocorridos ao mesmo tempo, e a prioridade era salvar as casas”. O saldo provisório de destruição, divulgado na terça-feira, era de cerca de um quarto da área florestal de Pombal destruído.

Quinta-feira, 4 de Agosto

Na tarde desse dia um espesso manto de fumo começou a cobrir a cidade. Mais de uma dezena de fogos deflagraram em simultâneo, levando a que o Plano Municipal de Emergência para o Concelho de Pombal fosse accionado. Incêndios em várias localidades das freguesias de Almagreira, Albergaria dos Doze, Vermoil, Carnide, Pombal, Ilha, Guia, Carriço, Louriçal e São Simão de Litém.
Algumas vias de comunicação, como a A1, chegaram a estar cortadas ao trânsito devido à invasão das chamas e falta de visibilidade. Os fogos provocaram ainda cortes no abastecimento de electricidade e na rede de telecomunicações.
Nesse mesmo dia equipas do INEM montaram uma Zona de Concentração Local no Pavilhão das Actividades Económicas onde assistentes sociais da Câmara e da Segurança Social, para além de vários voluntários atendiam populares evacuados. No local foram realojados idosos do Lar do Paço, em Almagreira, e de Água Formosa, na Ilha, para além de alguns residentes da Freguesia de Carnide. Posteriormente o local acolheu também idosos dos Centros de Dia da Mata Mourisca e de São Pedro, Albergaria. Também na escola da Guia foi montado um centro de acolhimento, entretanto desmobilizado às 05 horas de sábado.

Sexta-feira, 5 de Agosto

O cenário na sexta-feira de manhã era desolador. Em Albergaria dos Doze ocorriam duas frentes de fogo activas e o Lar de S. Pedro chegou a ser evacuado. O presidente da Junta, Rodrigues Marques, mostrava-se revoltado com a situação. “Eu e mais 20 agarrámos os carros às 14 horas de ontem e não parámos”. Na freguesia, pelo menos uma carpintaria e uma sucata foram destruídas, tendo o fogo ameaçado uma empresa de resina. Em Almagreira as chamas não davam tréguas, nomeadamente na zona de Reis, e ninguém conseguia contabilizar as perdas, entre a destruição de plantações, armazéns, estufas e morte de animais.
A freguesia de Carnide registava 10 casas totalmente destruídas, sendo seis habitadas. A população viveu momentos de pânico com o fogo a deflagrar por todos os lados e a consumir praticamente toda a mancha florestal da freguesia que cancelou as suas festas e inaugurações previstas para o dia seguinte. Também na Ilha duas habitações já tinham sido consumidas pelas chamas.
O presidente da Junta de Freguesia de São Simão de Litém, Nogueira Matos, era um dos autarcas mais desconsolados. “Cerca de 70 a 80 por cento da área verde da nossa freguesia já ardeu. Agora acho que vamos assistir ao consumo do restante. Estou destroçado”. Nas freguesias da Guia, Mata Mourisca, Meirinhas, Redinha, Vermoil e Pombal, o cenário de destruição não era muito diferente. Nesta última, as chamas estiveram a lavrar sem controlo na aldeia de Redondos e no Carregueiro, chegando a estar perigosamente próximas ao Parque Industrial Manuel da Mota.
Em reunião na sexta-feira de manhã, o Conselho Municipal de Operações de Protecção Civil considerou grave o cenário vivido no concelho. Os integrantes afirmaram ter constatado que grande parte do combate aos incêndios foi levada a cabo por populares e empresas, verificando-se a insuficiência de meios de combate, nomeadamente de meios aéreos. A Câmara Municipal decidiu convocar uma reunião de emergência do executivo que ocorreu ao fim da tarde, e onde resultou a aprovação, por unanimidade, do pedido, ao Governo, de Declaração de Calamidade Pública para o Concelho de Pombal.

Sábado em diante

O trânsito esteve cortado na AE1 entre Pombal e Condeixa-a-Nova devido a um incêndio na zona, situação que durou cerca de uma hora, sendo restabelecido com restrições a apenas uma via em cada sentido. Um incêndio atingiu Portela Sobral, enquanto os restantes locais atingidos eram cuidadosamente monitorizados pela população que se mantinha atenta a cada ameaça de reacendimento.
Ainda no sábado, pelas 17h30, foi desmontada a Zona de Concentração Local que funcionava no Pavilhão das Actividades Económicas. De acordo com o vereador responsável pelo pelouro da Acção Social, Pedro Martins, passaram pelo local mais de 80 pessoas que foram atendidas por uma psicóloga do INEM, uma assistente social da autarquia e três da segurança social, além de funcionárias dos lares e voluntários. O exército colaborou no atendimento à população e doou colchões, lençóis e cobertores.
O Plano Municipal de Emergência para o Concelho de Pombal foi suspenso no domingo, pelas 13 horas e, na segunda-feira o cenário era desolador em várias freguesias do concelho de Pombal, com muitos habitantes à porta de casa, ou do que estava dela, alheados do mundo. “Nunca pensei que um dia ia passar por uma situação destas”, garantiu Lucília Mendes, de Almagreira, acrescentando que “penso muito nas pessoas mais idosas que perderam tudo”.
É o caso de Maria da Conceição, de 75 anos, residente no lugar com irónico nome de Vale Cinzeiro, na freguesia de Carnide. A habitação foi completamente destruída e a idosa, bem como o marido, foram acolhidos por um filho. “É uma tragédia. Só restou uma galinha que descobri três dias depois, no que restou da casa de banho. Perdemos tudo, tudo”.